Entrevista: Luiz Eduardo Farias

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Pra quem acompanha o blog, sabe que eu amei muito mesmo o livro Lembranças do Vazio, escrito pelo autor brasileiro Luiz Eduardo Farias. Ocorre que, por se tratar de algo muito diferente e ao mesmo tempo muito próximo do que eu leio, vieram um zilhão de perguntas na minha mente. Pensei muito antes de bombardear o autor com tanta pergunta e decidi fazer a entrevista, assim todos podem conhecer mais sobre o livro e sobre o autor.

Antes de começar, eu queria deixar bem claro pra quem não leu o livro que haverá uns spoilers bem pequenininhos, então vão ler logo, vocês não sabem o que estão perdendo, esse livro pode ser considerado um dos melhores que li esse ano.

– Como conhecemos na história, você é um professor de História. Como descobriu que tinha talento para a escrita?
Monique, mesmo antes de entrar para a faculdade eu já gostava de escrever. Quando eu tinha uns 11 ou 12 anos, já estava escrevendo histórias de aventuras, vampiros… Mais tarde vieram os poemas para conquistar as meninas. Enfim, sempre gostei de me expressar com a escrita, já que oralmente era difícil devido à timidez. O que a faculdade me deu foi uma maior bagagem acadêmica. Historiadores são leitores vorazes. E temos que escrever bons argumentos para justificar nossas posições históricas. Isso me deixou melhor preparado para o mergulho que agora faço como escritor.
 
 – Você não só nos contou através do livro um fato marcante na sua vida, mas também expôs toda sua vida nele. Como surgiu a ideia de escrever?
É verdade! Me sinto até meio despido em saber que compartilhei tanta intimidade. Foi exatamente por isso que senti a necessidade de um narrador. E a roupagem de “romance” dá uma certa margem para eu me esconder. A ideia surgiu de uma necessidade mesmo. Eu queria mostrar para as pessoas como os acontecimentos por quais passamos são determinantes para o que seremos no futuro. E internamente, funcionou quase como uma terapia existencial.
 
 – Conhecemos várias pessoas importantes no livro que depois descobrimos ser pessoas importantes na sua vida, como seus familiares lidaram com a ideia de ter um livro com suas vidas expostas?
Isso foi muito difícil. Primeiro, me senti bem incomodado de ter que falar sobre algumas pessoas, mesmo não tendo a permissão delas. A ideia do “romance” também é uma forma de driblar esse problema. As personagens que são mostradas positivamente se sentiram lisonjeadas. A grande questão é em relação às pessoas que foram retratadas de forma negativa. A reação delas ainda é um mistério pra mim. Ainda não obtive esse retorno. Mas confesso que estou com medo.
 
 – Como você se sentiu ao colocar no papel tantos sentimentos e lembranças deixados no passado?
Então, complementando o que eu disse antes, foi como se eu estivesse em um divã, de frente para um psicanalista. Em muitos momentos eu tive que parar, pois eram situações que ainda mexem comigo. Em uma cena do livro especificamente (spoiler aqui tá!? – quando Leônidas tomou uma surra do pai no dia do aniversário), escrevi todo arrepiado e chorando, pois foi como se estivesse passando por aquilo novamente. No entanto, eu costumo pensar que nossas mágoas são como feridas… é sempre mais fácil cicatrizá-las quando elas estão expostas do que quando estão abafadas.
 
 – Durante o processo de escrita do livro, alguma vez você já pensou em parar?
Sinceramente não! Não foi a primeira vez que tentei colocar minha história no papel. Só que nunca conseguir escrever mais do que uma página. Desta vez, a cada capítulo que escrevia eu tinha mais certeza de que essa era a melhor maneira de lidar com os meus fantasmas. Desta forma, me agarrei às palavras de Clarice Lispector, quando ela disse que “você só terá sucesso na vida quando perdoar os erros e as decepções do passado.”
 
 – Enquanto você escrevia o livro, alguma música, cantor ou banda te ajudaram a fluir com as ideias?
Que eu me lembre não, rs. Sou meio (mentira, muito!) metódico para escrever. Preciso de silêncio, quebrado apenas com o barulho de um ventilador, que me ajuda na concentração. Só consigo trabalhar assim, seja como professor (fazendo e corrigindo avaliações) ou como escritor.
 
 – Qual a ideia você quis passar com seu livro? O que você quer que as pessoas sintam ao lê-lo?
Essa é uma pergunta muito importante. Eu não faria um livro que não tivesse um propósito. Até já li muitas histórias que são puro entretenimento, mas prefiro as obras provocativas, que nos fazem pensar na vida e no mundo. Foi exatamente isso que busquei. Eu espero que o meu leitor termine minha obra lembrando sobre o seu próprio passado, refletindo sobre seu presente e chegando à conclusão que a vida é assim mesmo: complexa e simples; dura e maleável; doce e amarga; lúcida e louca. Nosso papel é usar essa diversidade ao nosso favor, as adversidades como combustível e os obstáculos como escada.
 
 – Qual seu autor/livro favorito?
Olha, não é que eu não goste dos autores brasileiros, mas apaixonado mesmo eu sou por três estrangeiros: Victor Hugo, pelo magnífico “Os Miseráveis’; Dostoievski, pelo incrível “Crime e Castigo”; e George Martin, pela série de livros fantásticos (em todos os sentidos) “Crônicas de Gelo e Fogo”.  
 
 – Você tem projetos para outro livro? 
 
Tenho sim! Muitos leitores têm me incentivado a seguir com a caminhada como escritor. Eu fico meio dividido entre a literatura infanto-juvenil (algo voltado para o debate em torno dos mais variados preconceitos), pois tenho muitos leitores adolescentes –  alunos e ex-alunos, ou continuar com o romance baseado em histórias reais. Existem tantas pessoas com vidas incríveis por aí, que seriam fonte de inspiração pra tanta gente… estou pensando ainda.
Então, foi isso, espero que vocês gostem! E espero também ver mais livros desse escritor maravilhoso, orgulho da literatura nacional, super apoio qualquer gênero que escreva. É como diria a Hazel Grace, eu leria até a sua lista de compras.
Quem quiser conhecer mais sobre o Luiz Eduardo, suas redes sociais:

Uma dica? Comprem esse livro, vocês não vão se arrepender, não mesmo!

-M

11 comentários em “Entrevista: Luiz Eduardo Farias

  1. Oi, Nique!

    Ainda não tive a oportunidade de ler a obra do autor, mas gostei muito dessa entrevista. Acho muito legal conhecer novos autores, ainda mais nacionais, desejo sucesso ao escritor.

    Beijos,
    entreoculoselivros.blogspot.com.br

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  2. Adoro entrevistas, nos deixam mais por dentro dos “bastidores” do livro, o que inspirou, bandas e/ou músicas que ouvia enquanto escrevia, conhecer mais sobre a vida do mesmo… adoro! E adorei sua entrevista.

    Beijos,
    viajenumlivro.blogspot.com

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  3. Eu já tinha lido sua resenha sobre esse livro e gostado muito, mas essa entrevista me conquistou. Adorei, mais uma vez, a sinceridade do autor. Imagino que deva ter sido complicado mesmo colocar tantas coisas reais no papel, mas por um bem maior ele conseguiu e com maestria pelo visto.
    Já aguardo mais notícias dele por aqui. Beijos!!

    ourbravenewblog.weebly.com

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  4. Agora que terminei de ler essa entrevista fiquei com mais vontade de ler o livro,a mensagem que ele passa é bem legal,espero que ele escreva outros livro,afinal os nossos escritores tem que crescer cada vez mais

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  5. Oi, Nique. Parabéns pelo trabalho! É de extrema importância a valorização de nossos autores brasileiros. Não conheço a obra, mas agora conheço o autor e as respostas dele me deixaram muito curiosa. Deve ter sido emocionante para você depois de ter lido o livro ter a oportunidade de saber mais sobre quem o escreveu.
    Parabéns pelo incentivo a nossos autores!

    Beijos,
    Mia.

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  6. O autor é professor de história, que bacana! Agora entendo porque ele colocou todo o contexto histórico! Ahaha E adorei conhecer mais sobre ele, e mesmo recebendo uns spoilers, valeu à pena. E que interessante da parte dele escrever algo com a intenção de provocar uma reflexão e passar uma lição para quem lê! Adoro livros com algo a mais sem ser só entretenimento como ele disse. Citar Hazel Grace ❤ Que fofa você, sério, aposto que ele amou sua resenha e adorou a entrevista contigo! Parabéns, Nique!

    Beijos, Carol
    Blog com V.

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